terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Opinião: Taare Zameen Par

Nesse mês de Janeiro tive a oportunidade de ver o filme que a Lia acabou de colocar aí nas duas postagens abaixo. Começo por dizer que ela lutou bastante para achar o filme, tivemos de arranjar uma cópia, o que nos faz perguntar como esse filme não possua mais divulgação e mais cópias no Brasil. Ela teve de arranjar uma cópia da cópia com um amigo.

De fato, o filme não chegou a ser distribuído largamente aqui no Brasil, veio para um festival e conseguiu alguma divulgação, porém ainda assim pouca para ser visto na TV ou encontrado nas lojas. A resenha do post anterior está correta, trata-se do 'plot' geral do filme, mas mostra também como a abordagem sobre o problema é superficial. O filme se enquadra na categoria Drama, o desinteresse, a fuga e até as brigas de Ishaan são uma consequência de três fatores combinados:

1) Ishaan é um garoto inteligente, criativo e disléxico, esse dom a que a Lia trata tão bem neste blog. Junta-se a essa característica o segundo motivo, 2) Um sistema de ensino rígido, embotado e que explora muito pouco a criatividade dos seus alunos. O sistema de ensino indiano é bastante pesado e com uma carga de matérias disciplinares bem extensa, para se ter uma idéia, a todo momento no filme há frases em inglês, as crianças aprendem a língua da ex-metrópole muito cedo, o próprio Ishaan já sabia o inglês. Não é a toa que a Índia produz verdadeiros gênios em vários campos da ciência. O ensino de lá é bom.* Mas o sistema que funciona para alguns poucos não funcionava nada nada para Ishaan. Aí que entra o terceiro fator: 3) a incompreensão da família, o irmão mais velho de Ishaan estudava no mesmo colégio e se saia muito bem nas matérias e nos esportes, ao contrário do que lograva o caçula. Sua família tinha para ele as mesmas expectativas, iguais aquelas que se aplicavam ao irmão mais velho. A medida que o menino vem trazendo problemas no desempenho, em faltas e brigas, eles acham que é tudo culpa do temperamento do irmão menor, "não sabemos mais o que fazer com ele", os pais diziam. Ao longo do filme vemos que não era um problema de falta de amor, mas sim de incompreensão.

A situação se agrava depois que os pais, enganados pelos professores, resolvem interná-lo em um sistema ainda mais duro, acreditavam ser essa a solução. Foi aí que a luz interna de Ishaan quase se apagou, o menino que antes não se saia bem na escola, mas era feliz aprendendo com o mundo, submetido ao mesmíssimo sistema porém ainda mais rígido, perdeu até a vontade de desenhar, que era o que mais gostava. Por sorte o caso do menino Ishaan foi salvo por um professor de arte substituto que trabalhava em uma escola de crianças especiais e foi convidado a dar aula no internato.

A cena abaixo é a mais significativa do filme, em que o professor Nikumbh vai até a família fazê-los entender o que ocorre. Está em indiano e pouquinho de inglês, mas dá pra entender. Nikumbh vê todo o potencial de criatividade de Ishaan nos desenhos de seu quarto e mostra algumas características comuns como a letra espelhada presente em seus cadernos. Em um momento ele pega um jogo em Chinês e insiste para o pai ler, o homem protesta e começa se exaltar, então "cai a ficha": Ishaan era obrigado a ler algo que não podia comprender e quando tentava expressar suas dificuldades era tido como indolente. Ao fim desse diálogo, Nikumbh se pergunta se uma sociedade tão produtivista é mesmo o que devemos ter como objetivo, onde todos têm de render ao máximo, se alcançam 90%, tem de ir além, se alcançam 95% tem ainda que se superar, a coisa não tem limite.


Enfim, esse é provavelmente o melhor filme que já tratou desse tema. Quem conhece a situação sabe que o drama representado é tão real e a atuação dos atores é tão boa que o filme nos comove bastante. Infelizmente o descaso é grande, isso pode se ver inclusive pela matéria televisiva que a Lia postou aqui abaixo, o filme fica parecendo mais um menino maluquinho indiano, quando na verdade o tema é bem sério e o tratamento é com muita sensibilidade.

Percebam que precisou de um professor substituto que tratava com crianças especiais para entender o que se passava com o menino Ishaan. Ele já havia passado por 'n' professores, já tinha falado: "The letters are dancing" ("As letras estão dançando"), e ninguém tinha visto, percebido e tido a sensibilidade e boa vontade de saber o que se passava. Isso só demonstra o quão despreparados estamos (familiares, professores, escola e sociedade). Infelizmente essa é a rotina e não a excessão no sistema de ensino, é isso Lia nos contou em sua monografia.

Agora pensemos no contrário, imagine quantos e quantos não tiveram a sorte de Ishaan e que passando por um brutal sistema de ensino que tritura os nervos e despreza o indivíduo e sua criatividade, não viram sua luz interior se apagar...

*Infelizmente esse bom sistema de ensino se aplica para os mais afortunados. Como cá no Brasil, a Índia é também uma sociedade bastante injusta.

Um comentário:

  1. Galera, eu mesmo comento aqui:

    Acho importante esse filme ser mais divulgado. Tem de ser passado nas escolas e poderia ser divulgado nas TV's educativas. Afinal, são TVS em que a instrução deve ser a pauta principal, e muitas vezes vemos essas tvs perdidas em programas muito pouco construtivos. Poderiamos ao menos fazer despertar para esse filme.

    Abraços

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"Quem sabe faz a hora não espera acontecer"!