segunda-feira, 16 de março de 2009

O livro e a América



Castro Alves
Talhado para as grandezas,
P'ra crescer, criar, subir,O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:"Vai, Colombo, abre a cortina "Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio, Qual Tritão descomunal,
O continente despertaNo concerto universal. Dos oceanos em tropaUm-traz-lhe
as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes putrificados,Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão. Olhando em torno então brada: "Tudo marcha!...
O grande Deus!
As cataratas — p'ra terra,
As estrelas-para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Com os mundos...
co'os firmamentos!!!
E Deus responde — "Marchar!"
"Marchar!... Mas como?...
Da GréciaNos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar cota espada de Roma— Leoa de raiva coma
De presa enorme no chão,Saciando o ódio profundo...— Com as garras nas mãos do mundo,— Com os dentes no coração?...
"Marchar!... Mas como a Alemanha Na tirania feudal,
Levantando uma montanhaEm cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo: "No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!
'Filhos do sec'lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou!...
Por uma fatalidade Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência Desta sede de saber,
Como as aves do deserto —As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia... E manda o povo pensar!
O livro caindo n'almaÉ germe-que faz a palma,
É chuva-que faz o mar.
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões, P'ra o batismo luminoso
Das grandes revoluções, Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"— Ginete dos pensamentos,— Arauto da grande luz!...Bravo!
a quem salva o futuroFecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação. Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu! ...

Um comentário:

  1. Q texto doido, é comprido, mas é bonito, nem li todo, português de Portugal mesmo, bem arcaico,né naum? Legal!!!
    Bjos
    Juliana

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"Quem sabe faz a hora não espera acontecer"!