Caros amigos, estou lendo o livro do Alex Bellos: Alex no País dos Números: uma viagem ao mundo maravilhoso da matemática da editora Companhia das Letras.O livro é bem bacana, traz várias curiosidades da matemática, muito útil para professores da matéria e demais leigos e curiosos, e mesmo para os que dizem não gostar da matéria, pois o livro também é voltado para demitificar o bicho-de-sete-cabeças que em geral se costuma pensar para matemática. Uma questão que aparece logo no início do livro, trata de como as pessoas percebem os números e os assimilam. Dentro desse assunto o autor apresenta uma série de pesquisas do antropólogo Pierre Pica (é, nome engraçado eu sei) com os indios Munducurus na amazônia brasileira. Outro assunto introduzido são as pesquisas do neurocientista Brian Butterworth sobre a discalculia. Eu reproduzo aqui o trecho do livro que trata do assunto.
"Será que os humanos precisam de palavras para números acima de quatro
para ter um entendimento exato deles? Não é nisso que crê o
neurocientista Brian Butterworth, professor da Universidade de Londres.
Ele acha que o cérebro contém uma capacidade inerente para compreender
números exatos, que chamou de "módulo de número exato". Segundo sua
interpretação, os humanos apreendem os números exatos de itens em
pequenas coleções, e ao acrescentar números um a um a essas coleções
podemos entender como se comportam os números maiores. Butterworth vem
realizando suas pesquisas no único lugar fora da Amazônia em que existem
grupos indígenas quase sem palavras para números: o interior da
Austrália.
A comunidade aborígine Warlpiri vive perto de Alice Springs e só tem
palavras para um, dois e muitos, enquanto os Anindilyakwa de Groote
Eylande, no golfo de Carpentária, só têm palavras para um, dois, três
(que às vezes significa quatro) e muitos. Em um experimento com crianças
de ambos os grupos, um bloco de madeira era martelado por um bastão até
sete vezes, e contadores foram dispostos num tablado. Às vezes o número
de pancadas era igual ao número dos contadores, às vezes não. As
crianças foram perfeitamente capazes de dizer quando os números
conferiam e quando não conferiam. Butterworth argumentou que para obter a
resposta certa as crianças estavam produzindo uma representação mental
do número exato, que era suficientemente abstrato para representar uma
numeração ao mesmo tempo auditiva e visual. Essas crianças não tinham
palavras para os números quatro, cinco, seis e sete, mas eram
perfeitamente capazes de guardar essas quantidades na cabeça. As
palavras podem ser úteis para entender a exatidão, concluiu Butterworth,
mas não são necessárias.
Outro ponto importante do trabalho de Butterworth - e de Stanislas
Dehaene [cientista cognitivo francês que escreveu The number sense] - é um distúrbio chamado discalculia, ou cegueira para números,
que faz com que a pessoa tenha uma noção imperfeita dos números. Ocorre
em cerca de 3% a 6% da população. Os que sofrem desse distúrbio não
"apreendem" os números da mesma forma que a maioria das pessoas. Por
exemplo, qual dos números abaixo é o maior?
65_________________________24
Fácil, o 65. Quase todos nós chegaremos à resposta certa em menos
de meio segundo. No entanto, para quem sofre de discalculia pode levar
até três segundos. A natureza do distúrbio varia de pessoa para pessoa,
mas os portadores do distúrbio em geral têm problemas em correlacionar o
símbolo de um número, digamos 5, com o número de objetos representados
pelo símbolo. Também têm dificuldade para contar. Ser portador de
discalculia não quer dizer que a pessoa não saiba contar, mas os que
sofrem desse distúrbio tendem a não ter a intuição básica sobre os
números e por isso recorrem a estratégias alternativas para lidar com
eles no cotidiano, usando mais os dedos, por exemplo. Os doentes mais
graves mal conseguem ver as horas.
Se você aprendeu bem todas as matérias na escola mas nunca conseguiu
passar num exame de matemática, é possível que sofra de discalculia.
(Mas se você sempre repetiu em matemática, é provável que não esteja
lendo este livro.) Considera-se que esse distúrbio seja uma das
principais causas da inaptidão para a aritmética. Do ponto de vista
social, é urgente que se entenda a discalculia, pois adultos com inépcia
aritmética são mais sujeitos ao desemprego e à depressão do que as
pessoas normais. Mas pouco se sabe sobre este mal, que pode ser visto
como uma versão numérica da dislexia: os sintomas são comparáveis por
afetarem mais ou menos a mesma proporção da população e por não
influenciarem a inteligência de modo geral. No entanto, sabe-se muito
mais sobre dislexia do que sobre a discalculia. Aliás, estima-se que
existam dez vezes mais estudos acadêmicos sobre dislexia do que sobre
discalculia. Entre as razões que explicam essa desproporção está a
existência de muitas outras razões para ir mal em matemática -
pelo fato de a matéria ser mal ensinada na escola, ou por ser fácil
ficar para trás quando se perdem lições em que são apresentados
conceitos cruciais. Também o tabu social em relação a pessoas ruins em
números é muito menor do que para os que leem mal.
Brian Butterworth costuma escrever cartas de recomendação em favor de pessoas que examinou em busca de sintomas de discalculia para explicar aos empregadores em potencial que a impossibilidade de aprender matemática não se deve à preguiça ou à falta de inteligência. Os portadores do distúrbio podem realizar grandes coisas em qualquer outra área que não envolva números. É até mesmo possível, afirma Butterworth, ter discalculia e ser muito bom em matemática. Existem diversas áreas da matemática, como a lógica e a geometria, que priorizam o raciocínio dedutivo ou noção especial mais do que sofrem de discalculia não são nada bons em matemática".
Grifos nosso.
Esse trecho é muito interessante para o nosso blog por mostrar um outro lado. Quem tem dislexia não necessariamente tem discalculia, e vice-versa, não são a mesma coisa. Mas é muito interessante se conhecer alguns aspectos em comum das semelhanças gognitivas e alertar a todos assim como fez Alex Bellos no seu interessante livro.



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